A ideia desse post é contar um pouco de como foi o processo de ensaios da peça HISTÓRIAS EXTRAORDINÉDITAS. Vai servir para você, que tem curiosidade sobre o assunto, e também servirá para nós, no futuro, quando a gente quiser se lembrar de alguns detalhes deste espetáculo.

Mas, mesmo antes de começar a escrever sobre este assunto, é sempre bom esclarecer: se o Antropofocus é um grupo de comédia teatral, porque fazer um espetáculo de improvisação?

O grupo estreou em outubro de 2000 com um espetáculo que já tinha improvisação, tanto no processo de criação quanto na apresentação. A peça chamava-se AMORES & SACANAGENS URBANAS e você pode ficar sabendo um pouco mais sobre ela clicando AQUI. Ela fundamentou o grupo em um parâmetro que se estabeleceu desde o momento zero: se este é um grupo de teatro, então o produto final que ele apresenta é originado por todas as pessoas que participaram do processo. Mesmo. Nossos cartazes, desde 2002, nunca mais tiveram indicado no cartaz de quem é a direção do projeto, mas sempre tiveram “Antropofocus apresenta”. O que nos possibilita isso é a improvisação como ferramenta de criação, em que o ator e o diretor contribuem com o trabalho um do outro o tempo todo. Fazer uma peça que fosse focada na improvisação em cena era importante para todos nós,  para nos instrumentalizar na criação de histórias espontâneas e escritas.

O improviso é conhecido no Brasil especialmente por jogos de improvisação, mas ele tem muitos outros formatos a oferecer. O espetáculo que o grupo leva ao palcos agora é um “médio formato”, que tenta fazer cenas e esquetes improvisadas usando informações da plateia. A decisão de fazer num formato novo veio tanto da vontade do grupo de sempre enfrentar novos desafios a cada projeto novo (todos já tinham passado pela experiência de fazer espetáculos de improviso de jogos), e também porque improvisar cenas aumenta a consciência de como construir dramaturgia coletiva (o que será muito proveitoso para um grupo que escreve os próprios textos).

Os ensaios começaram em fevereiro de 2015. Semanalmente, por no mínimo 3 dias, o grupo se encontrava na sede do Antropofocus para treinar técnicas de improvisação, discutir sobre construção de história, preparar o corpo e a mente para novas possibilidades. Todo projeto cênico de qualidade precisa de ensaios intensos, mas a improvisação em grupo tem uma questão extra: não há possibilidades de praticar em casa, decorar suas falas, estudar o personagem. A única maneira de treinar efetivamente é improvisar em conjunto.

Minha função durante os ensaios foi de diretor teatral e instrutor de improvisação, levando novos exercícios ou recapitulando exercícios básicos que são tão necessários para o nosso ofício. Para este projeto, que recebeu incentivo fiscal do governo municipal, também conseguimos convidar três professores que estiveram conosco no processo:

Daniel Nascimento

debate depois da apresentação com Daniel Nascimento

– no início de março tivemos um workshop com Daniel Nascimento, da Cia Barbixas de Humor -SP, que veio trabalhar alguns fundamentos da improvisação norte americana (ele tinha recentemente voltado de um curso em Nova Iorque). Com ele o grupo ficou alguns dias em sala de ensaio e fez uma apresentação aberta para a cidade.

ballas

Márcio Ballas na sede do Antropofocus

– no final de março tivemos um encontro com Marcio Ballas, professor, improvisador e idealizador da Casa do Humor – SP (um espaço para o estudo do humor em todas as suas formas). Ele veio para conversar conosco sobre o processo do espetáculo CALEIDOSCÓPIO, um longform (espetáculo de improviso que busca uma encenação mais longo e contínua durante a noite, fazendo com que a improvisação dure de 40 minutos até quase duas horas dependendo do projeto), que ele dirigiu em 2010. Além de falar conosco sobre as decisões de direção da peça, ele contou um pouco sobre o processo de ensaio e  ferramentas de dramaturgia improvisada.

Omar

Omar Argentino em frente ao grupo de improvisadores de Curitiba

– em abril tivemos a visita do mestre internacional de improviso Omar Gálvan. Ele merece o título de “internacional”, pois efetivamente deu aulas de improviso em mais de 20 países. Famoso tanto pelas suas aulas quanto pelos espetáculos solos de improvisação (ele tem dois em repertório), ele deu um curso exclusivo ao grupo, um curso aberto para artistas de Curitiba, fez duas apresentações do seu SOLO DE IMPRO e fez uma apresentação aberta junto com o Antropofocus.

A ideia do espetáculo sempre teve, na sua concepção original, a presença de um escritor que era inspirado pela plateia. Mas a ideia foi evoluindo e mudando durante todo o processo. E continuará mudando durante toda a temporada, muito mais do que uma peça de teatro mudaria. Afinal, tanto a parte improvisada do projeto quanto as regras internas acordadas entre improvisadores sofrerá bastante influência da plateia.

Como o improviso se baseia muito em experimentar coisas novas, as apresentações estão sujeitas – e abertas – ao erro. Ele vai acontecer, isso é certo! Na noite que não acontecer você sabe que os improvisadores tomaram decisões seguras, não surpreenderam a si mesmo e nem seus parceiros de cena. Estar aberto ao erro é um processo muito doloroso para um artista porque, sinceramente, nenhum ator quer estar diante de uma plateia e não ser amado por isso. Por isso, todo improvisador é um artista de risco, e sou muito grato a todos que estão se arriscando neste processo pelo Antropofocus (elenco e equipe técnica).

logo antes da estreia

Edran Mariano, Jairo Bankhardt, Anne Celli, Marcelo Rodrigues, Lucri Reggiani, Kauê Persona, Candiê Marques. Foto de Andrei Moscheto

O espetáculo que estreia hoje é o novo filho deste grupo que, há quase 15 anos, continua fazendo teatro em Curitiba. Esperamos que a cidade adote também esta nova criança.